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sábado, 18 de junho de 2011

NÃO ACREDITO – Texto de Osmar Ludovico

Não acredito em respostas prontas, estereotipadas e definitivas, mas em ser apenas um aprendiz, aprendendo sempre, num processo sem fim de aprender, desaprender e reaprender.
Não acredito em estratégias, modelos ou planos religiosos definidos e reproduzíveis, mas nas surpresas do dia a dia vivido na presença de Deus, no convívio familiar e comunitário.
Não acredito em projetos ministeriais importados e apostilados, mas no serviço simples, contínuo e discreto em favor dos pobres.
Não acredito em técnicas de evangelização, mas sim em pregar o Evangelho com a vida, e, quando necessário, usar palavras.
Não acredito no barulho e na agitação, mas sim no recolhimento e no silêncio.
Não acredito na busca de poder religioso para alimentar ambições pessoais, mas sim no poder que se aperfeiçoa na fraqueza.
Não acredito no que acontece sob os holofotes e é propagandeado, mas no imperceptível, no pequeno, no gesto simples do cotidiano.
Não acredito em lideranças personalistas, mas em servos anônimos que refletem a vida e o caráter de Cristo.
Não acredito num Evangelho explicativo, argumentativo, teórico, mas no Evangelho que me coloca em uma relação afetiva com Deus, comigo mesmo e com meu próximo.
Não acredito na linguagem da motivação e da autoajuda, mas na linguagem da intimidade que encontra espaço para afetividade e confidências.
Não acredito na teologia da prosperidade, mas numa teologia que gere quebrantamento, humildade, simplicidade e serviço desinteressado.
Não acredito em crentes bonzinhos e certinhos, mas em gente real que erra e se arrepende e não tem vergonha de se apresentar como pecador remido pelo sangue do Cordeiro.
Não acredito em oração que busca conforto pessoal, mas em oração que clama por santidade pessoal e luta por um mundo mais justo.
Não acredito em oração gritada em público com o intuito de chamar atenção sobre si, mas na oração no secreto onde ninguém vê e ninguém sabe.
Não acredito em testemunhos, livros e conversas de pessoas que se consideram vitoriosas em tudo e que nunca erram, mas em pessoas reais que se alegram e se entristecem, têm virtudes e defeitos.
Não acredito em práticas religiosas produzidas pela mente humana, mas naquelas que são fruto de uma intimidade com Deus.
Não acredito em igrejas de classe média voltadas para si mesmas e sem visão social, mas naquelas cujos recursos humanos e financeiros são disponibilizados para missões e para os pobres.
Não acredito que o marketing nos trará o Reino de Deus entre nós, mas em ações concretas na busca da justiça e da paz nas nossas cidades.
Não acredito em profecia que gera crentes infantilizados dependentes do profeta, mas em profecia que anuncia o juízo, gera quebrantamento e dependência de Deus.
Não acredito nos abraços e nos “eu te amo, meu irmão” instantâneos induzidos por pregadores, mas em abraços e amizades pessoais vividas no cotidiano, ao longo da vida.
Não acredito em adoração que se resume ao “louvorzão” do domingo dirigido por levitas, mas que glorificar a Deus é um estilo de vida de doação e santidade.
Não acredito em alguém que diz que ama a Deus e não tem amigos, mas naqueles cujos vínculos, afetos e amizades evidenciam que de fato são discípulos de Cristo.
Não acredito em discipulado que é mera doutrinação de conceitos e informações corretas, mas no discipulado que gera metanóia, arrependimento, mudança interior que se reflete nos gestos e atitudes do dia a dia.
Não acredito em um crescimento espiritual linear e progressivo, mas em um processo contínuo de aprender, desaprender e reaprender, sujeito a recaídas, crises e dúvidas.
Assim, não acredito que cheguei lá, que já tenho todas as respostas. Deus tem me dado graça e coragem para continuar nesta jornada sem volta, distanciando-me cada vez mais da minha natureza caída em direção à perfeita estatura da varonilidade de Cristo. Quanto mais avanço, mais distante fico do meu ponto de partida – meu “eu” caído, e mais me aproximo de onde quero chegar: tornar-me à semelhança de Cristo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ezequias e a Carta de Senaqueribe

Texto de Héber Diniz
Há uma narrativa nos livros dos Reis (2 Rs 19-14.16) que me inspira muito diante das dificuldade e desafios da vida.
Senaqueribe, o rei da Assíria, planejava invadir Judá e como forma de afrontar e assustar os judeus ele enviou uma carta bastante ofensiva, dizendo que não haveria como o povo escapar das suas mãos.
O rei de Judá, Ezequias, que temia o Senhor, fez algo muito interessante: tomou a carta, levou-a ao templo, estendeu-a perante o Senhor e orando clamou que o Senhor mesmo visse as palavras ofensivas daquela carta e agisse em favor do seu povo. E Deus assim o fez, trazendo um grande livramento a Ezequias e a todo o povo de Judá. É claro que Deus já sabia tudo o que estava acontecendo, mas a atitude de Ezequias nos ensina muito sobre depender e entregar tudo a Deus.
Muitas vezes, o meu coração está cheio de medo, preocupações, dúvidas e outras coisas que podem se tornar um grande fardo.
Nestas horas, eu faço como Ezequias: escrevo tudo num papel, estendo diante de Deus e clamo: “Senhor, estas são as coisas que tem me perturbado. Estou entregando tudo a Ti, reconhecendo tua soberania, graça e poder. Me ajude a descansar em Ti no que está fora do meu alcance e agir de modo correto naquilo que está ao meu alcance”.
Na próxima vez que você estiver se sentido acuado, ou sem forças, experimente fazer como o rei Ezequias!
Não é uma fórmula mágica... longe disso. Mas é uma sugestão bem prática de visualizar os problemas e entregá-los a quem tem todo o poder!
Que Deus nos abençoe!

terça-feira, 8 de março de 2011

ANTIGO SOPRO DE VIDA Texto de Dayana Façanha

Enlevo, Poesia, Amor.
Não posso mais concentrar-me apenas em meus próprios pensamentos.
Nem mesmo sou capaz de fixar-me devidamente em meus afazeres cotidianos.
Ai das responsabilidades com as quais não posso faltar!
E sei que não vou faltar, porque a presença Dele só me faz melhor, e melhor de uma maneira pura; não se trata de um aperfeiçoamento mundano.
É como se a brisa daquele sopro antigo viesse agora, esvoaçasse meus cabelos, enchesse meus pulmões, e fizesse pulsar... Vida.
De dentro pra fora nasce uma entrega até então desconhecida, um contentamento inexplicável, uma doce sensação de viver, aprender e servir.
Como ia dizendo, não vivo mais apenas eu.
Aqueles a quem visito, com quem converso, a quem ouço...
Aqueles que me emocionam e por quem oro frequentam meus pensamentos.
De maneira indiscreta me interrompem.
Sem licença, me fazem lembrar de seus sorrisos, pedidos, angústias.
Arranjaram um lugar em meu coração.
Espero encontrá-los Lá, onde não há choro nem doenças, em volta daquele a quem esperamos.
...Que bom é Tua Vida em minha vida...
02 de março de um ano qualquer na contagem dos homens, na esperança certa da eternidade onde o tempo não existe.
Filha Dele.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

UM TEXTO DE OSWALD CHAMBERS

Para a liberdade foi que Cristo nos libertou (Gl 5.1)
O homem espiritual nunca tenta impor suas crenças a outro. Ao contrário, ele procura orientá-lo a conduzir sua vida de acordo com os padrões de Jesus. Não somos chamados a acreditar na Bíblia, mas a crer naquele que a Bíblia revela. Somos chamados para pregar liberdade de consciência, não liberalidade de opinião. Se Cristo verdadeiramente nos libertou, devemos levar outros a conhecer essa mesma liberdade – a liberdade de experimentar a soberania de Jesus Cristo.
Avalie sempre sua vida pelos padrões de Jesus. Submeta-se somente ao jugo de Jesus, e não a nenhum outro, seja ele qual for; tenha cuidado de jamais colocar sobre outros um jugo que o próprio Jesus não tenha colocado. Leva algum tempo para Deus nos livrar da idéia de que aqueles que não pensam como nós estão errados. Deus nunca defendeu essa posição. Existe apenas uma liberdade atuando em nossa consciência, capacitando-nos a fazer o que é certo: a liberdade de Jesus.
Não seja impaciente. Lembre-se de como Deus foi paciente e gentil com você, porém, nunca diminua a verdade de Deus. Deixe-a agir, e não peça desculpas por ela. Jesus nos disse para fazermos discípulos, e não adeptos das nossas próprias opiniões.
Escrito por Oswald Chambers em algum dia entre 1911 e 1917.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

NO ANO QUE VEM QUERO SER OBRA DE ARTE

Texto do Pastor Wilson Ávilla (I.B.N.J. Em Santos)
Que mundo teríamos sem a cultura do belo? Bem mais triste, por certo.
Arrisco dizer que a estética foi a sombra do paraíso que Deus projetou sobre o homem para aliviar o abrasar da existência arruinada pelo pecado.
Deus é o artista maior, o doador da beleza, e a arte é o aspecto misericordioso da graça comum. Imitar sua veia artística, portanto, com modesta despretensão, é adorá-Lo, no melhor ideal da beleza da santidade.
Por isso, no ano que vem quero ser artista.
Quero ser pintor, para colorir o mundo, meu e dos outros, muito além de paredes e objetos, com expressões múltiplas de luz e vida.
Mas também quero ser escultor, para extrair da pedra bruta da existência as melhores formas de relacionamentos, onde o amor seja o cinzel nas mãos do hábil Criador.
Quero ainda ser poeta, escritor, operário da palavra, descobrindo sentidos, emprestando da vida a semântica do bem e da virtude.
Mas não posso esquecer de ser músico, em obstinada busca dos sentimentos e significados que as palavras não podem exprimir.
Quero por fim ser ator, para em performances verdadeiras e intensas experenciar todas as nuanças das emoções, decifrando os enigmas da fragmentada realidade, das falas desencontradas e dos conflitos.
Confesso, quero abraçar o mundo, mas com os braços de Deus, que se alongam ao infinito nas preces e devoção dos justos.
Ainda que eu me frustre, se os sonhos eu não encontrar, se à beleza não chegar, serei confortado pela Palavra de Deus que me lembra que eu próprio sou obra de arte do grande Deus. Paulo declara esta verdade em Efésio 2:10 - “Pois somos feitura (obra de arte) dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.”
No ano que vem (ainda bem!), Ele continuará fazendo, desfazendo, refazendo, moldando, desenhando pintando, escrevendo poemas e os mais belos textos, libertando formas perfeitas de pedras informes, criando sinfonias e harmonias, idealizando os mais densos enredos em pessoas como eu e você, que beleza nenhuma teriam, se não fossem as mãos do Mestre.

domingo, 19 de dezembro de 2010

UM TEXTO DA MADRE TEREZA DE CALCUTÁ

Muitas vezes as pessoas são egocêntricas, ilógicas e insensatas.


Perdoe-as assim mesmo.

Se você é gentil, as pessoas podem acusá-lo de egoísta, interesseiro.

Seja gentil, assim mesmo.

Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros.

Vença assim mesmo.

Se você é honesto e franco as pessoas podem enganá-lo.

Seja honesto assim mesmo.

O que você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para outra.

Construa assim mesmo.

Se você tem Paz, é Feliz, as pessoas podem sentir inveja.

Seja Feliz assim mesmo.

Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode nunca ser o bastante.

Dê o melhor de você assim mesmo.

Veja você que no final das contas, é entre você e Deus.

Nunca foi entre você e as outras pessoas.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O PÃO DO CÉU

Texto de Reinaldo Bui
Prá que orar se podemos nos preocupar?
Quantos em algum momento de suas vidas já não pensaram assim? Se não pensaram, pelo menos assim agiram sem pensar.
Quantos de nós andamos ansiosos, preocupados com o dia de amanhã?
Quantos de nós, em algum momento, deixamos de nos alegrar com o que Deus já nos deu porque não temos o que Ele ainda não deu? E talvez nem dê!
Conforme aprendemos, quando Jesus nos estimula a pedir “o pão nosso de cada dia” ele quis ensinar que Deus não está comprometido com nossos luxos, mas sim com o que é essencial para viver.
Portanto nós (ricos e abastados do século XXI), devemos estar olhando com mais atenção para este pedido com profunda gratidão e senso de dependência no coração, cientes de que
(1) este pão cotidiano é Deus quem nos dá, e
(2) se Ele dá a mais é com algum propósito.
Mas ainda insistimos na nossa ansiedade.
Um pouco antes de ensinar a orar, Jesus avisou: “não andeis ansiosos pela vossa vida”, Ele referia-se justamente ao que havemos de comer ou beber; e também pelo nosso corpo, quanto ao que havemos de vestir.
E a pergunta que Ele dispara na sequência (do "Não andeis ansiosos por coisa alguma..."), deveria nos levar refletir um pouco neste assunto.
Pare e pondere:
“Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?” e “Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?” (Mateus 6.25 e 27)
Só paramos de nos preocupar quando nos sentimos satisfeitos; e quando estamos satisfeitos estamos felizes.
Pessoas insatisfeitas são pessoas infelizes. Pessoas infelizes nunca estão satisfeitas com o que Deus lhe dá.
Então Jesus nos ensina o segredo de uma vida feliz:
“...buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6.33).
Deus está dizendo: “Cuide das minhas prioridades que eu cuido das suas necessidades, ok?”
Busque algo maio nobre. Uma vez que o nosso pão cotidiano está garantido, de que sentimos falta?
Note o que Jesus respondeu a Satanás durante Sua tentação no deserto em Mateus 4.4: “Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”.
Jesus viveu neste mundo, mas não seguia o curso deste mundo.
Ele “preocupava-se” com coisas muito mais elevadas: em como agradar a Deus.
Ocupava-se em santificar o nome de Deus; com o reino dos Céus; em fazer a vontade do Pai.
O que o mantinha vivo era isto. Alimento físico é útil para um dia. No dia seguinte precisamos mais. Ele nos conserva vivos (corpo), mas não são essenciais para a alma.
O que alimenta e satisfaz a nossa alma, segundo Jesus, era: “Mas ele lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis. Diziam, então, os discípulos uns aos outros: Ter-lhe-ia, porventura, alguém trazido o que comer?Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra”. (João 4.32-34)
Devemos ansiar por isto!
E também almejar pelo dia em que todos terão fome e sede de beber da fonte de água viva e comer do pão que vem do céu.
Todos nós já o comemos, e precisamos continuar nos alimentando dele diariamente.
Muitos, mas muitos mesmo, nunca provaram deste pão, nunca beberam desta fonte.
Estão morrendo com sede e com fome.
Eis que vêm dias, diz o SENHOR Deus, em que enviarei fome sobre a terra, não de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR. (Amós 8.11)
Quem dará de comer a este povo?
Habitue-se à idéia de que o pão nosso de cada dia é muito mais do que o alimento físico para o desenvolvimento do nosso corpo.
É o Pão do céu que nosso Pai nos dá.
Preocupamo-nos com coisas tão superficiais e nos esquecemos do que realmente tem valor.
Devemos falar, compartilhar, repartir o pão, dar de comer e de beber a quem tem fome e sede.
Reflita sobre qual tem sido as três principais fontes de preocupação na nossa vida, na vida da Igreja?
No “ranking das ansiedades”, que posição ocupa a preocupação diária em pregar o Evangelho, levar a Palavra aos que nunca ouviram?

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A IMPORTÂNCIA DE SABER OUVIR

Texto de Osmar Ludovico
A audição é um sentido maravilhoso. Somos gratos a Deus por esse dom, pena que o usemos tão mal. Vivemos imersos no ativismo, na agitação, na correria. Somos falastrões compulsivos. Buscamos nos cercar de muitos ruídos e estímulos, com medo da sensação de abandono. Há pouco espaço para o silêncio nas igrejas e casas. Nossa capacidade de escuta é afetada por esse constante barulho ao redor. A verdadeira e profunda escuta emerge de um coração quieto e sereno. Quanto mais tagarelice e barulho, menos podemos ouvir.
A quem devemos ouvir? Em primeiro lugar, à voz de Deus. Esse é um tema constante nas Escrituras, que descrevem a dureza de coração como a incapacidade de ouvir a Palavra. É preciso ouvir Deus com a mente e o coração, com a razão e os sentimentos, deixando-se penetrar pela Palavra transformadora.
Como a semente que cai no solo para ser fertilizada e dar fruto, assim é a Palavra de Deus que cai no coração. “Terra” em latim é húmus, o que deu origem à palavra “humildade”. Assim, ela permanece quieta, sem chamar a atenção, pisada, despercebida, mas está pronta para acolher a semente no profundo, no escuro, e dar seu fruto no devido tempo.
Quando foi a última vez que escolhemos acolher a Palavra e, como Maria, nos colocarmos silenciosamente aos pés de Cristo para ouvi-lo? A capacidade de ouvir Deus está relacionada à qualidade da vida devocional. Ler a Palavra, recebê-la e aplicá-la no cotidiano é graça, favor imerecido, e, ao mesmo tempo, disciplina a ser desenvolvida. Graça, pois, depende da revelação de Deus e não pode se tornar uma técnica; disciplina, pois requer de nós uma escolha, um exercício no tempo (horário pré-determinado) e no espaço (local propício).
Em segundo lugar, devemos ouvir uns aos outros. A comunhão depende de comunicação. Ouvir e ser ouvido cria a comunidade. Os litígios e conflitos surgem quando não ouço e não sou ouvido. Os relacionamentos desmoronam por causa da incapacidade de se escutar uns aos outros. Essa é a queixa comum na família, partindo de esposas, maridos e filhos: “Não sou ouvido, não sou compreendido, não sou respeitado”.
Ouvir negligentemente gera mal-entendido. Em vez de acolher, debatemos, em vez de ouvir, discutimos. Alteramos o tom de voz, gritamos. Enquanto o outro fala, pensamos na resposta, e uma conversa vira bate-boca. Reconciliar e pacificar significa levar duas pessoas a ouvir uma à outra. Quando realmente ouvimos aquilo que o outro diz, nos identificamos com sua humanidade; passamos a entender seu mundo e, assim, podemos chorar com os que choram e nos alegrar com os que se alegram.
Quando há escuta, podemos nos expor, contar quem somos na certeza de que o outro nos ouve e se solidariza conosco. A controvérsia teológica e a maledicência revelam mentes estereotipadas, fechadas, avessas ao diálogo e à transparência, além do medo da aproximação, que dificulta discernir a fraternidade, isto é, encontrar o irmão e perceber que somos membros do mesmo corpo. Quando existe um contexto de escuta, as máscaras caem. Ouvimos e somos ouvidos a partir de nossa realidade mais profunda e aprendemos a nos respeitar, validando e considerando a história e a singularidade das pessoas.
Finalmente, somos chamados a ouvir o mundo. Devemos começar reconhecendo que nós, cristãos, vivemos alienados numa bolha protetora. Não ouvimos o clamor do mundo – pelo contrário, ouvimos passivamente a mídia com sua mensagem consumista que nos acomoda e anestesia. Tornamo-nos surdos aos inúmeros clamores do mundo.
Só quando ouvimos, entramos em contato com o mundo tal qual ele é. Assim, nos identificamos e compreendemos o drama do ser humano sem Deus, ouvimos suas indagações, suas dores, e então, podemos falar de um evangelho que vai ao encontro de suas necessidades. Esse é o princípio da encarnação. Ouvimos não somente o clamor dos perdidos, mas também o clamor dos pobres. Só há um ser que devemos nos recusar a ouvir: o diabo. Esse foi o erro de Adão e Eva: em vez de ouvirem a Deus, ouviram Satanás.
Por fim, é necessário cumprir o grande mandamento: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças. [...] Ame o seu próximo como a si mesmo” (Mc 12. 30-31); precisamos aprender a ouvir melhor a Deus e uns aos outros, pois essa é uma profunda expressão do amor.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A SEMENTE NO CORAÇÃO ENDURECIDO

Texto de Reinaldo Bui
“E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram... São estes os da beira do caminho, onde a palavra é semeada; e, enquanto a ouvem, logo vem Satanás e tira a palavra semeada neles” .(Mateus 13.4,19)
Normalmente aplicamos esta parábola a um contexto evangelístico, esquecendo-nos que a Palavra não se limita apenas às boas novas da salvação. Ela existe também para nos ensinar, repreender, corrigir e educar na justiça, a fim de que sejamos amplamente capacitados para toda boa obra. Estas sementes visam também o nosso crescimento espiritual. Jesus foi o maior dos semeadores e, nesta parábola, Ele se posiciona como tal e nos compara a um terreno onde serão depositadas suas sementes, classificando a alma, isto é, o coração humano, em vários tipos de solo. O que impressiona é que ele não os classificou pela capacidade de errar e acertar ou vencer e fracassar, mas sim pela receptividade, desprendimento e disposição para aprender. Para ele, o coração humano é o solo mais apropriado para receber suas sementes. O que mais podemos fazer com estas sementes senão enterrá-las em nossos corações? Só uma semente enterrada pode germinar, e uma vez desenvolvida deve frutificar, transformando nossas emoções e nossos pensamentos. Este fruto é caracterizado por amor, alegria, paz, paciência, bondade, benignidade, fé, mansidão, domínio próprio, além de uma capacidade sobre-humana para perdoar e servir.
Os quatro tipos de solo que Jesus descreve nesta parábola podem representar quatro tipos de personalidades distintas ou quatro estágios da mesma personalidade.
O primeiro tipo de solo aqui apresentado está compactado, endurecido e impermeável. Ele representa aquelas pessoas que têm seu próprio caminho e não estão abertas para algo novo, não estão dispostas a aprender. Elas se fecham dentro do seu mundo, são orgulhosas, não conseguem se abrir para novas possibilidades ou novos pensamentos. São inquestionáveis e sentem-se donas absolutas da verdade. Seus corações são compactados como a terra pisada de uma estrada. Quando põem uma coisa na cabeça, ninguém consegue fazê-las mudar de idéia. Quantas pessoas nós conhecemos que possuem estas características? É fácil identificar? Agora pense: quantas vezes não agimos assim? Somos turrões, teimosos, não permitimos que nos questionem e explodimos diante da menor ameaça de confronto. O mundo tem que girar em torno do que pensamos, achamos e sentimos. As dores e experiências difíceis deveriam funcionar como um arado, mas em vez de aprendermos com elas, só pioramos a situação! Dessa maneira, vamos ficando cada vez mais intolerantes e fechados.
Assim eram os fariseus, assim eram os discípulos de Jesus e assim somos nós. A diferença é que, em algum momento, os discípulos abriram o coração. Eles tinham inúmeros defeitos, mas eram pessoas ensináveis. O orgulho deles não tinha grandes raízes, o que os diferenciava dos fariseus. Nem as sementes de amor que Jesus semeava germinam num solo compactado. Por quê? Porque Deus não violenta a alma de nenhum ser humano, mas trabalha no coração daqueles que lhe permitem. Quanto àqueles que insistem em manter seus corações tão endurecidos...
“Vendo, vêem, e não percebem; e ouvindo, ouvem, e não entendem... não
se convertem e não são perdoados”. (Mt 13.13)
Por isso Deus exorta: Quando ouvirem a minha voz, não endureçam seus corações... (Hb 3.8)
Medite...
Como está o terreno do seu coração? Você consegue ser ajudado pelas pessoas que o rodeiam? Seus erros (se os reconhece) e sofrimentos conseguem sulcar seu coração e torná-lo apto para que mais sementes possam germinar?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

EU, UM PERSONAGEM

Texto de Reinaldo Bui
A Bíblia está repleta de personagens e suas histórias. Alguns são mais conhecidos e outros menos. Alguns são considerados “grandes homens de Deus" que realizaram importantes obras e outros nem tanto. O que acho mais interessante é que a Bíblia não esconde o pecado de nenhum destes personagens. Mesmo os "grandes homens de Deus" tiveram seus deslizes, cometeram erros crassos, ou nitidamente falando, pecaram feio. São provas vivas de que Deus executa Sua Obra através de nós e apesar de nós mesmos. Por isto considero a Bíblia como um livro de testemunhos, mesmo porque acima de tudo, o próprio Deus não se deixou ficar sem testemunho.
Existe ainda uma esmagadora maioria de anônimos e desconhecidos que fazem parte desta história. Assim como eu e você, são personagens aparentemente sem importância que às vezes não tem nome, idade, família, caráter ou personalidade (quero dizer que nada disto foi registrado para que outros viessem a conhecer). É o povo, a massa. Cada um deles - e nós aqui, hoje - fazemos parte desta multidão invisível das batalhas, dos massacres, das misérias, da pobreza, das doenças, mas também dos escapes milagrosos, das procissões, das festas, das alegrias entre tantos outros relatos. Somos essa massa. Não precisamos ser necessariamente a massa burra, meros "assistidores" de big brother e comedores de comida enlatada. Mas estamos inseridos nesta massa. Deus aí nos colocou. Por quê? Que importância temos nós, meros desconhecidos, neste processo, no projeto de Deus, dentro do nosso contexto? Muita. Podemos não ser o personagem principal desta história. Aliás, este papel (reivindicado por alguns) é de Jesus. Talvez não sejamos nem o ator coadjuvante. Talvez você esteja inconformado em ser mero figurante, mas preste atenção nisto: não se trata de ser o destaque ou não, mas de fazer ou desprezar a vontade de Deus aonde Ele te colocou.
Se somos filhos de Deus, temos nosso nome escrito no Livro da Vida. Isto é o que importa. Se temos o nosso nome escrito neste Livro, é incoerente querer que nosso nome se projete como "O Nome" aqui na Terra. Se quisermos agradar a Deus, procuraremos exaltar o Seu nome, não o nosso. Se vivemos para ele, não é o meu eu que deve ser exaltado. Se exaltarmos o Seu Nome, Ele nos exaltará. Se buscarmos nossa glória aqui na terra, poderemos até alcançá-la, mas é tudo o que teremos.
O perigo de querermos nos projetar é grande, e pode ser percebidos em todos os nossos planos, aspirações, sonhos, intenções e atitudes de nossa curta estadia neste mundo. Eu disse pode ser percebido, mas muitas vezes não é.
Ruth Harms Calkin captou isto em sua vida e descreveu com graça e poesia este perigo: A necessidade de buscar reconhecimento humano. Eis um pecado que tenazmente nos assedia! Devemos ler este poema como uma oração pessoal:

Tu sabes, Senhor, como te sirvo
Com enorme fervor emocional
Quando estou debaixo de holofotes
Sabes como falo de ti ardentemente
Na reunião de Senhoras
Sabes com que entusiasmo promovo
Uma reunião de confraternização
Conheces meu sincero fervor
Em um grupo de estudo bíblico
Mas como será que reagiria
Se me apontasses uma bacia com água
E me pedisses para lavar os pés calosos
De uma velhinha enrugada, arqueada
Todos os dias
De todos os meses
Num lugar recluso onde ninguém visse
E ninguém soubesse do fato?

Diga, com toda a sinceridade: como você reagiria se Deus lhe apontasse esta incumbência?
Por que deste sentimento de resignação?
Existe em você algum desejo secreto de ser a "estrela do show"? Ou ao menos querer exaltar alguma qualidade para ser reconhecido ou apreciado, mesmo que dissimuladamente?
Se você quer ser reconhecido pelos homens, muito provavelmente conseguirá, mas é tudo o que vai ter.
Se quiser ser reconhecido por Deus, procure cultivar o pensamento de João Batista:
"Convém que Ele cresça e que eu diminua!". Jo 3.30

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

APRENDEI DE MIM

Texto de Reinaldo Bui
“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve”. (Mateus 11:28-30)
Muitas vezes somos escravos das nossas emoções porque não conseguimos controlar nossos pensamentos. Isto se dá quando somos hipersensíveis às opiniões dos outros.
O resultado desta “hipersensibilidade” é um negativismo exagerado, insatisfação com tudo e com todos e uma dificuldade enorme de contemplar os acontecimentos mais simples e belos da vida ou mesmo de compreender e elogiar as pessoas.
Esperamos que todos ajam positivamente à nossa volta, mas dificilmente o fazemos. Isto faz com que não consigamos extrair os prazeres dos pequenos detalhes da vida.
Jesus não tinha nenhum destes problemas. Não era negativista e nem insatisfeito, pelo contrário, era uma pessoa contagiante. Nunca se deixava abater pelos erros das pessoas nem pelas situações difíceis.
As sementes que havia plantado no coração dos seus discípulos ainda não haviam brotado, mas mesmo assim ele pedia com uma esperança surpreendente: "Erguei os olhos, pois os campos já branquejam".
Quando disse tais palavras, o ambiente que o rodeava era de desolação e tristeza. Ele possuía muitos opositores: gente que queria matá-lo.
Sabia que seus discípulos o abandonariam no momento mais difícil. Sabia que sofreria muito ao passar pela cruz.
Sabia que em breve estaria experimentando a morte física e, o que é pior, a separação do Pai.
Mesmo assim, n'Ele não havia sombra de desânimo.
Talvez a posição geográfica que eles se encontravam só permitia aos discípulos enxergarem pedra e areia. Certamente eles não enxergavam aquilo que Jesus via: Homens e mulheres dispostos a deixarem um coração amargurado e endurecido por um coração disposto a louvar ao Senhor em todo o tempo de sua vida.
Seus discípulos não enxergavam nada disto. Nem num presente próximo e nem futuro. Mas em Cristo não havia qualquer sombra de desânimo. Se estivéssemos no seu lugar, excluiríamos a todos aqueles que nos machucariam por qualquer motivo: traição, rejeição, abandono... Entretanto, sua motivação para continuar vinha do desejo de transformar estes homens rudes e áridos num campo fértil, onde o amor do Pai frutificaria.
Ao contrário dele, ao primeiro sinal das dificuldades, desistimos de nossas metas, projetos e sonhos.
Precisamos aprender com ele. Carregamos um jugo pesado demais para nossas costas. Precisamos aprender a erguer os olhos e olhar por trás das dificuldades, das dores, das derrotas, das perdas e compreender que os invernos mais rigorosos podem trazer as primaveras mais belas.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

PRESENÇA QUE SE FAZ PRESENTE

Texto de Henri Nouwen

Quando nos sentimos realmente confortados e consolados? Quando alguém nos ensina como pensar ou como agir? Quando recebemos um conselho para onde ir ou o que fazer? Quando ouvimos palavras tranqüilizadoras e de esperança? Algumas vezes, talvez. Porém, o que realmente importa é ter alguém ao nosso lado nos momentos de dor e de sofrimento.

Mais importante do que qualquer ação específica ou de uma palavra de aconselhamento é a simples presença de alguém que se interessa por nós. Quando alguém nos diz, no meio de uma crise: "Eu não sei o que dizer ou o que fazer, mas quero que você saiba que estou ao seu lado, que não o deixarei sozinho", podemos nos sentir seguros de que temos um amigo em quem podemos encontrar consolo e conforto.
Numa época tão repleta de métodos e de técnicas destinados a mudar as pessoas, a influenciar o seu comportamento e a fazer com que elas façam coisas diferentes ou tenham idéias novas, perdemos o dom simples, porém difícil, de permanecer ao lado das pessoas.
Perdemos este dom porque somos levados a acreditar que nossa presença precisa ser útil. Nós pensamos: "Por que devo visitar esta pessoa? Não posso fazer nada por ela! Não posso sequer lhe ser útil!". Entretanto, esquecemos que muitas vezes é a presença humilde, despretensiosa e "inútil" de alguém ao nosso lado que nos dá consolo e conforto.
Permanecer ao lado de alguém pode parecer simples, mas é uma tarefa difícil, pois exige que compartilhemos nossa vulnerabilidade com esse alguém, que passemos junto com ele pela experiência da fraqueza e da impotência, que nos tornemos parte da incerteza. Para isso, precisamos abrir mão do controle e da autodeterminação. Porém, quando isso acontece, nasce nova força e nova esperança.
Aqueles que nos oferecem conforto e consolo ao permanecerem ao nosso lado em momentos de doença, de angústia mental ou de trevas espirituais, muitas vezes estão mais próximos de nós do que aqueles com quem temos laços de sangue. Eles demonstram sua solidariedade para conosco ao penetrarem de boa vontade nos espaços escuros e desconhecidos da nossa existência. Por essa razão, são eles que nos trazem nova esperança e nos ajudam a descobrir novos rumos na vida.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

DA ÉTICA NA ECONOMIA

Texto de Reinaldo Bui

Passeando pela história antiga, média, moderna e contemporânea, vemos como o pensamento humano transformou-se no decorrer dos séculos, fruto das mutações econômicas na civilização ocidental.
Na idade média a economia restringia-se basicamente ao comércio de produtos artesanais e especiarias. Naquela época, o pensamento dominante mantinha a população escrava de seus temores, preocupada apenas em levar uma vida regrada e modesta onde, acreditava-se, assim fazendo obteriam a salvação de suas almas. O clero e a nobreza valendo-se desta realidade, concentravam a riqueza em suas mãos.
A partir da reforma protestante, deu-se início a uma era onde a busca pelo conhecimento científico-tecnológico determinaria o ritmo do desenvolvimento e conseqüente enriquecimento das sociedades vigentes. A idade moderna trouxe consigo uma nova realidade. A igreja católica já não era mais a detentora de todas as almas e do pensamento dos cidadãos comuns. O livre pensar levou o homem a novas descobertas, surgindo assim as ciências modernas, alavancadoras da revolução industrial entre outras coisas.
O surgimento da indústria atraiu o camponês para as cidades à procura da falsa segurança do trabalho assalariado. Surge aqui uma nova classe social. Ademais, com o inchaço das cidades nascem as primeiras metrópoles, e o aumento populacional exige uma demanda cada vez maior de produtos industrializados para suprir as necessidades da população. A lei da oferta e da procura intensifica-se absurdamente.
O capitalismo cresce sem muitos escrúpulos. Novos modelos econômicos, como o socialismo por exemplo, são propostos como alternativa de beneficiar a classe trabalhadora, pois no modelo capitalista não traz consigo nenhum mecanismo regulador ou limitador de ganhos, permitindo que muita riqueza e poder se concentre na mão de poucos em detrimento da grande e miserável população. Traz-se à tona a antiga mentalidade grega de que a felicidade pessoal (de poucos) deve ser conquistada e mantida a todo custo, ainda que para isto muitos precisem sofrer. Esta era a justificativa para os gregos, que tanto valorizavam a liberdade, sustentarem a escravidão.
Mas a nossa preocupação central deve ser justamente analisar a ética em meio a estes turbulentos paradigmas sócio-econômicos. Não somente a ética nos relacionamentos humanos, como também, mais recentemente, uma ética voltada para a preocupação com o meio ambiente. Se até então os senhores da indústria viam o próximo como empregados/consumidores em potencial e o planeta como mero fornecedor de matéria prima, a preocupação com um sistema ético global deve converter esta mentalidade egoísta numa consciência socialmente e ecologicamente aceitável. Em lugar da antiga e impessoal relação patrão – empregado deve ser observado um relacionamento entre semelhantes. Em lugar do extrativismo e da exploração dos recursos naturais serem medidos somente pelos lucros, devemos olhar para nosso planeta como nosso lar e das futuras gerações. A ética da economia deve passar obrigatoriamente por estas vias.
Por fim, numa rápida análise, percebemos que um pouco de ética evitaria muitas falhas inerentes à estratégia brasileira de importar e implantar neste país um modelo econômico pronto, ignorando o fato do Brasil, na época, ser um país essencialmente agrícola além de estar profissionalmente e culturalmente despreparado para receber a enxurrada tecnológica importada pelo primeiro mundo. Alem do mais, a política coronelesca vigente preferiu implantar um modelo de mídia que promove o consumismo e o entretenimento das massas ao invés de investir em educação e cultura, próprio de países desenvolvidos.
Como podemos perceber, a ética deve ser a base e a orientação de toda economia ao invés da busca ávida por lucro. Enquanto o amor ao dinheiro for o princípio balizador - não apenas de nossa economia mas da economia mundial, os princípios éticos estarão sendo pisoteados fazendo com que uma humanidade rica, mas cega e extremamente infeliz, pereça em todos os sentidos.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A Importância dos Missionários de Base

por Reinaldo Bui
Neste momento, em algum lugar do nosso país (para não estender este apelo a outras nações), há um crente frustrado em seu trabalho. Este irmão ou irmã é apaixonado por missões, seu coração ferve sempre que ouve uma mensagem desafiadora para “ir pelo mundo” aos povos que ainda não ouviram o Evangelho para pregar a mensagem de salvação. Mas ele vive num impasse. Seu paradigma de missionário é o mesmo da igreja em geral: aquele intrépido e desprendido ser que largou tudo e todos para se enfiar no meio de uma mata longínqua, a fim de viver sem um mínimo de conforto, disposto a se habituar à culinária nada convencional do povo que ele escolheu, só para levar as Boas Novas de Cristo.
Sua frustração só aumenta. Quanto mais este irmão ou irmã busca aconselhamento com seus pastores, mais distante suas esperanças ficam do “campo missionário”. Seu perfil é de alguém que adora rotina e desenrola muito bem o serviço burocrático. Talvez ele trabalhe numa empresa de telecomunicações, talvez ela seja uma secretária eficiente. Ou então este irmão/irmã seja um advogado, ou algum profissional da área administrativa, ou sei lá. Pode ser qualquer coisa, mas nunca conseguiu se imaginar comendo turu e morando numa maloca por amor às almas perdidas. Não que este sentimento não lhe incomode, mas por ser urbano demais, não conseguiria chegar tão longe. Por isto, cala-se, frustrado. Não consegue imaginar em que poderia ser útil para a proclamação do Reino. Ah, sim. Ele/ela é ativo em sua igreja. Mas quem tem o coração em missões está sempre com a cabeça lá longe.
Talvez alguns o questionem sobre a autenticidade do seu “chamado”, e este é outro paradigma que precisa ser quebrado. Chamado missionário não é algo místico. Se você está esperando uma revelação por sonho ou alguma visão extática, esqueça. Olhe para a Palavra (que vale muito mais do que qualquer visão). Atente, por exemplo a textos como:
"...sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra" (Atos 1.8).
"...Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura". (Marcos 16.15).
Este chamado, não é para poucos. Esta convocação é para todos os crentes. A questão é se você vai obedecer ou não... E aonde você vai cumprir esta comissão.
Voltemos ao nosso irmão frustrado. Ele tem convicção da importância desta santa convocação e perturba-se profundamente com isto. Para complicar ainda mais, seu teste de dons não apontou para evangelismo, ou ensino, nem para apostolado. Como era de se esperar, ele/ela é apto para administrar ou presidir. Desconsolado, chora: "continuarei orando por missões..."
Neste momento, em algum lugar do nosso país há um crente apaixonado por missões, mas frustrado porque o velho paradigma o impede de ir; e neste mesmo momento, em alguma base missionária, há um missionário que está louco para ir embora pro meio do mato, comer turu com o povo local e morar numa maloca, a fim de desenvolver seu dom de compartilhar o Evangelho de maneira contextualizada... Mas não pode porque alguém tem que fazer o serviço burocrático e rotineiro na base da missão. Ele ora: "Senhor, mande alguém prá fazer este serviço porque senão eu vou ficar louco com esta papelada aqui!"
Somente quem desconhece quantos dons e habilidades diferentes são necessários para se compor uma equipe missionária ignora que “missionários de base” são tão importantes quanto os “missionários de campo.”
Reinaldo Bui, 45, pastor da IBCU e missionário na região nordeste pela missão Juvep, formado no IMPV Norte, casado com M. Cristina L. Bui e pai de três filhos: Pedro, Célia e Julia. Ele afirma que turu (uma larva que se alimenta de madeira podre) é bom, mas picanha é melhor.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

ESCRITOR E PASTOR

Ser escritor e ser pastor são para mim atividades praticamente iguais: um ingresso no caos, na confusão das coisas, e depois o lento e misterioso trabalho de criar algo a partir da confusão, algo bom, algo abençoado – um poema, uma oração, uma conversa, um sermão, uma visão da graça, uma descoberta de amor, um modelo de virtudes. É o Yeshua dos fiéis hebreus, a soteria dos cristãos gregos. Salvação. O resgate pela criação e recriação da imagem de Deus. O ato de escrever não é literário, mas sim espiritual. E ser pastor não é administrar um negócio religioso, mas sim uma busca espiritual.
A oração, essa intensidade do espírito atento na presença de Deus, está no cerne das duas atividades: a do pastor e a do escritor. Quando escrevo, trabalho com palavras; atuando como pastor, trabalho com pessoas. Mas não são meras palavras e meras pessoas; são palavras e pessoas como portadoras do espírito/Espírito. No instante em que as palavras são usadas sem o espírito de oração e as pessoas são tratadas sem esse mesmo espírito, algo de essencial começa a se perder na vida.
(Eugene Peterson, Deus e Paixão . In Yancey, Philip. Muito mais que palavras)

sábado, 19 de junho de 2010

POESIA DE ADÉLIA PRADO

Se não fosse a esperança de que me aguardas com a mesa posta,
o que seria de mim não sei.
Sem o teu nome
a claridade do mundo não me hospeda,
é crua luz crestante sobre ais.
Eu necessito por detrás do Sol,
do calor que não se põe e tem gerado em meus sonhos,
na mais fechada noite, fulgurantes lâmpadas.
Porque acima e abaixo e ao redor do que existe,
permaneces.
Eu repouso meu rosto nesta areia,
contemplando as formigas, envelhecendo em paz,
como envelhece o que é de amoroso dono.
O mar é tão pequenino diante do que eu choraria
se não fosses meu Pai.
Ó Deus, ainda assim não é sem temor que te amo, nem sem medo.

sábado, 12 de junho de 2010

AVATAR E O PÓS-HUMANISMO

Recentemente lançado no Brasil também em DVD, Avatar é um belo filme, ainda mais para aqueles que apreciam ficção científica e ação. Para além dos espetaculares efeitos especiais, não podemos deixar de reconhecer que o escritor e diretor James Cameron sabe como fazer filmes sobre aquilo que as pessoas querem ver. Ele assina os dois maiores campeões de bilheteria do cinema, o próprio Avatar e Titanic. A grande aceitação pela sociedade faz do filme um bom indicador das expectativas e dos rumos que nossa cultura está tomando. Por outro lado, ele acaba também exercendo um efeito reforçador sobre essas expectativas.
Certamente as muitas interpretações possíveis do conteúdo do filme fogem ao controle de Cameron e isso mostra sua grande capacidade de captar os anseios da sociedade (principalmente a estadunidense) e expressá-los artisticamente.
Cabe, portanto, uma reflexão mais profunda sobre a mensagem final do filme: os humanos são os vilões, ambiciosos (o empresário da mineradora), violentos, arrogantes (o coronel), autoritários e pragmáticos (a cientista chefe do projeto Avatar). O próprio herói do filme, o ex-fuzileiro paraplégico Jake Sullivan, em busca de dinheiro para a cura da sua deficiência, é um frio mercenário até se sensibilizar com a cultura Na’vi e se tornar o messias encarnado na pele azulada de um Avatar. Com a ajuda da deusa Eywa os humanos são vencidos e expulsos de Pandora. O modelo violento e arrogante da cultura humana está superado, o enxame de poderosos helicópteros, no mais glorioso estilo Apocalipse Now, está definitivamente derrotado.
Os humanos se vão humilhados, como os males da mítica caixa, mas fica uma esperança para os vencedores: a ciência pode ajudar a transpor o humano e suas deficiências físicas, morais e até espirituais. Tornar-se Na’vi é a mensagem final, com vislumbres de superação inclusive da morte. Para os gregos antigos a condição humana se reduzia à mortalidade, por isso, ao contrário dos deuses, os humanos eram denominados simplesmente mortais.
“Nos próximos 50 anos a ciência permitirá aos humanos transcender suas limitações, nossos corpos e cérebro se fundirão ao poderio computacional, usaremos a tecnologia para redesenhar a nós e nossos filhos em diversas formas de pós-humanidade” (More M. On Becoming Posthuman, 1994). O trans-humanismo prega a interferência radical da ciência para aumentar nosso tempo de vida e até alcançar o ideal pós-humano da imortalidade.
O herói do filme se desilude de sua humanidade e passa a lutar pelos valores dos Na’vi. Busca algo que existe apenas em Pandora: o precioso metal unobtainium (inobtível) com propriedades extraordinárias e que não pode ser obtido no mundo real. Ele tenta salvar a dra. Augustine mas não é mais possível. Como prêmio de consolação ela acaba sendo incorporada à Árvore das Almas e, ao final do filme, é feita a transferência definitiva da “alma” de Jake ao seu Avatar.
Há quem veja o pós-humanismo como uma postura radical demais, uma fantasia delirante com aspirações de pseudo-religião, há também quem considere essas aspirações legítimas, elevando a ciência ao status divino e reduzindo o ser humano a uma espécie de software que pode ser transferido para uma máquina ou um Avatar.
Essas posições, concordemos ou não, merecem todo respeito, mas cabe lembrar que existem pessoas motivadas pelos mais diversos interesses, dispostas a fazer experiências extremas e colocar em risco aquilo que nos torna verdadeiramente humanos. A análise preliminar do tema traz, pelo menos, um alerta de prudência sobre o assunto.
Para além dessa distopia pós-humanista de imortalidade, implícita no final do filme, resta uma esperança (última referência ao mito de Pandora): é esse sonho de imortalidade, essa aspiração de sermos deuses que, lá no fundo, sempre nos fez e nos fará cada vez mais humanos...

Venâncio Pereira Dantas Filho e Flávio César de Sá são médicos e membros do Módulo de Bioética e Ética Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp

sábado, 29 de maio de 2010

CONCEITO E PRECONCEITO

Um professor do ensino médio me relatou um fato que lhe ocorreu. Dois de seus alunos assistiam a um vídeo no Youtube. A imagem e a voz eram de um adolescente, que falava com um forte tom afeminado. Os rapazes davam gargalhadas, de modo que o professor se aproximou para ouvir. Porém, não havia nada de divertido na fala, riam simplesmente dos trejeitos de quem falava. Disse-lhes, então: “isso que vocês estão fazendo é um desrespeito com essa pessoa. Desculpem-me, mas não acho a menor graça”. Um deles tentou consertar: “eu não tenho preconceito. Acho que se a pessoa quer ser homossexual é um problema dela, e não há nada de errado nisso”. E, sem pensar no que dizia, depois completou: “Mas acho muito engraçado o jeito que eles falam”.
O que disse esse jovem deve ser meditado um pouco mais a fundo. Será que o simples fato de se divertir do jeito diferente do outro não é uma forma cruel de preconceito? Por outro lado, ter um conceito negativo ou positivo sobre algo implica necessariamente ter preconceito com quem é ou pensa de forma diversa? Mais explicitamente, ter a convicção de que o homossexualismo não é algo intrinsecamente bom significa, inexoravelmente, ter preconceito contra o homossexual?
O Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, de Francisco da Silveira Bueno (Rio de Janeiro: FENAME, 1982), dá uma definição interessante de preconceito: “conceito antecipado e sem fundamento razoável; opinião formada sem reflexão (...)”.
Taxar de engraçado o jeito de falar, ou mesmo debochar da pessoa pelas costas denotam uma falta de consideração, uma opinião pejorativa sem qualquer fundamento. É, portanto, um preconceito.
Por outro lado, é possível que se tenha uma convicção muito bem ponderada e refletida sobre o homossexualismo, sem que isso possa ser tido como preconceito. Pode ocorrer, por exemplo, que alguém tenha ponderado a fundo sobre o tema e, após uma criteriosa análise, concluiu que é da essência da união conjugal a diversidade dos sexos. Pode-se estar convicto de que é necessária a diferença para que homem e mulher se complementem exatamente naquilo que o outro não possui e, a partir disso, conclua que o homossexualismo é algo intrinsecamente contrário à natureza humana.
Nesse caso, ao manifestar sua opinião não se pode dizer que tenha um preconceito contra o homossexual. Ao contrário, tem um conceito sobre o homossexualismo, com um fundamento razoável, fruto de criteriosa reflexão. E essa opinião é digna de respeito, como também o é a opinião contrária.
Ao se formar esse conceito, porém, não se autoriza qualquer atitude discriminatória, e tanto menos faltar com o respeito com quem faz tal opção ou simplesmente tenha opinião contrária. Tanto menos se justifica qualquer atitude discriminatória em relação ao homossexual.
Certa vez, um palestrante, que possuía essa mesma opinião sobre o homossexualismo, foi interpelado por um ouvinte que disse: “eu penso mais ou menos como o senhor, mas tenho uma filha que é homossexual e vive com outra mulher. O que devo fazer?”. O palestrante fitou-lhe nos olhos e disse simplesmente: “Já disse tudo o que penso sobre o homossexualismo. E agora te digo que, se isso acontecesse comigo, essa filha seria a que mais teria o meu carinho. Por certo ela já sofre muito, principalmente pela discriminação. Não diria jamais a ela que a opção que fez é boa. Também não acredito que ela encontrará, por esse caminho, a sua plena realização enquanto pessoa. Mas a respeito e, como pai, a amaria sempre e incondicionalmente”.
E depois concluiu: “não ter preconceito não significa chamar o erro de acerto ou o preto de branco. Nem muito menos transigir com a verdade em que se acredita. Significa tratar a todos com imenso respeito, fruto de um amor desinteressado, que não vê nos outros brancos, negros, pobres, ricos ou seja o lá o que for, mas simplesmente pessoas e, como tais, dignas de serem amadas e respeitadas sem qualquer condição, e sem esperar nada em troca”.
Fábio Henrique Prado de Toledo. Juiz de Direito em Campinas.

sábado, 13 de março de 2010

TUM-TÁ (Silas Stein)

TUM-TÁ
“Nosso coração batendo no ritmo do coração de Jesus!!”
O Tum-tá é um projeto dos universitários cristãos da Unicamp junto ao serviço de capelania do Hospital de Clínicas (HC). A idéia do projeto surgiu no começo de 2008 quando os alunos da medicina Íkaro e João conheceram o Chico, pastor que está a frente do projeto até hoje. Com o crescimento do vínculo entre os cristãos universitários nos últimos anos foi fácil divulgar a idéia e aproximar aqueles que têm no coração o desejo e a disposição para amparar e trazer alguma alegria às centenas de pessoas das mais diversas condições sociais e dos mais variados locais do Brasil que são internadas no Hospital de Clínicas da Unicamp semanalmente.
Em um hospital com 375 leitos distribuídos em 38 enfermarias os pastores Silvio e Chico e o padre Norberto contam com a ajuda de voluntários que se dispõem a ajudar no trabalho de visita aos pacientes. O Tum-tá pretende trazer os alunos universitários para se envolverem com o mundo hospitalar da Unicamp.
Em difícil condição de saúde e muitas vezes distantes dos familiares a maioria dos pacientes se mostra muito contente e receptiva com as visitas, pois lhes proporcionam um momento de conversa amistosa que retira um pouco a atenção de seus muitos problemas. Também buscamos amparar as pessoas lembrando-as da benevolência, fidelidade e amor de nosso Deus que se expressa, acima de tudo, no sacrifício redentor de Jesus Cristo. Não temos a mínima intenção de convencer as pessoas acerca de determinadas doutrinas, nem transmitir alguma religião específica, mas demonstrar o amor de Deus estando ao lado delas num momento difícil.
As visitas estão restritas aos dias da semana durante o período da tarde. Normalmente os alunos escolhem o dia da semana em que estão mais livres para se dedicar ao projeto. Os interessados devem passar por um período de conversa e treinamento com o Pr. Chico para sentirem o ambiente do hospital e aprender como lidar com os pacientes. É sempre válido lembrar que um serviço como esse, apesar de toda recompensa que trás, tem as suas dificuldades particulares, por isso é necessário que o voluntário tome conhecimento dessas questões e sinta segurança antes de começar qualquer atividade. Do mais se você está interessado ou deseja mais informações não deixe de entrar em contato.
LOCAL: Capelania do hospital de Clínicas (3o andar)
HORÁRIO: De segunda a sexta a partir das 14:00 hs

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

DO MUNDO VIRTUAL AO ESPIRITUAL de Frei Beto

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: “Qual dos dois modelos produz felicidade?”.
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: “Não foi à aula?”. Ela respondeu: “Não, tenho aula à tarde”.
Comemorei: “Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde”. “Não, retrucou ela, tenho tanta coisa de manhã... “. “Que tanta coisa?”, perguntei. “Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina”, e começou a elencar seu programa de garota robotizada.
Fiquei pensando: Que pena! A Daniela não disse: `Tenho aula de meditação!'.
Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: `Como estava o defunto?'. `Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questo da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...
A palavra hoje é `entretenimento' ; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: `Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.
O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse. Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje no Brasil, constrói-se um shopping center.
É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...
Entra-se naqueles claustros a som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus; se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório; mas se não pode comprar certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonalds...
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: `Estou apenas fazendo um passeio socrático'. Diante de seus olhares espantados, explico: `Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!".
(Frei Betto)